Viajar faz bem para a saúde mental? Ciência explica efeitos das férias no estresse, cérebro e bem-estar

Estudos associam períodos de descanso à recuperação do estresse, melhora temporária do bem-estar e maior flexibilidade cognitiva; especialistas explicam por que sair da rotina pode ajudar, e quando a viagem não substitui tratamento

5 motivos científicos que explicam por que viajar faz tão bem para a saúde mental

Reservar tempo para descanso e lazer pode fazer muito bem para a saúde mental. Pesquisas realizadas nas últimas décadas indicam que períodos de férias e afastamento temporário das demandas cotidianas estão associados à recuperação do estresse e à melhora do bem-estar.

Viajar é uma das maneiras de criar essa pausa. A mudança de ambiente, o contato com novos estímulos, os momentos de lazer e, principalmente, a possibilidade de se afastar temporariamente das pressões do trabalho e de outras responsabilidades podem favorecer a recuperação psicológica.

Os benefícios, no entanto, não significam que viajar seja tratamento para ansiedade, depressão ou outros transtornos mentais. Também não é necessário fazer uma viagem longa, cara ou internacional para encontrar oportunidades de descanso. As pesquisas indicam que fatores como relaxamento, autonomia sobre o próprio tempo e experiências prazerosas têm papel importante na recuperação durante as férias.

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Mais de 1 bilhão de pessoas vivem com transtornos mentais

A discussão ganha relevância diante da dimensão dos problemas de saúde mental no mundo. Segundo dados atualizados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 1,1 bilhão de pessoas viviam com algum transtorno mental em 2021, o equivalente a quase uma em cada sete pessoas no planeta. Ansiedade e depressão estavam entre as condições mais frequentes.

Somente os transtornos de ansiedade atingiam aproximadamente 359 milhões de pessoas em 2021, sendo considerados pela OMS a categoria mais comum de transtornos mentais.

No Brasil, um número divulgado há alguns anos ainda chama atenção. Estimativas da OMS referentes a 2015, publicadas em 2017, apontavam que aproximadamente 9,3% da população brasileira apresentava transtornos de ansiedade naquele período.

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O que acontece quando finalmente paramos?

Uma das principais explicações para os benefícios observados durante as férias está relacionada à recuperação das demandas e do estresse acumulados na rotina. Trabalho, estudos, responsabilidades familiares e outras exigências demandam esforço físico e mental. Quando há poucas oportunidades de recuperação, cansaço e tensão podem se acumular.

Períodos de descanso criam uma oportunidade para interromper temporariamente esse processo. Uma das pesquisadoras que se dedicaram ao tema é a psicóloga Jessica de Bloom, que, ao lado de pesquisadores como Sabine Geurts e Michiel Kompier, investigou a relação entre férias, recuperação do trabalho, saúde e bem-estar.

Em um estudo publicado no Journal of Happiness Studies, pesquisadores acompanharam trabalhadores antes, durante e depois de férias prolongadas. Os resultados mostraram que os indicadores de saúde e bem-estar melhoraram rapidamente durante o período e atingiram o ponto mais alto aproximadamente no oitavo dia das férias.

Há, entretanto, uma conclusão importante: depois da retomada do trabalho, os benefícios diminuíram rapidamente e os indicadores retornaram próximos aos níveis anteriores às férias.

Uma meta-análise conduzida anteriormente pela mesma linha de pesquisa, reunindo sete estudos, também encontrou efeito positivo das férias sobre saúde e bem-estar. O efeito médio observado foi relativamente pequeno e diminuiu rapidamente após o retorno ao trabalho.

Isso indica que as férias podem funcionar como um período importante de recuperação, mas não eliminam permanentemente as fontes de estresse presentes na vida cotidiana.

Relaxar pode importar mais do que simplesmente viajar

Viajar faz bem para a saúde mental Ciência explica efeitos das férias no estresse, cérebro e bem-estar

Outro ponto importante revelado pelas pesquisas é que não basta estar oficialmente de férias. No estudo de De Bloom e colegas, experiências como relaxamento, prazer, autonomia e capacidade de apreciar experiências positivas estiveram relacionadas à evolução do bem-estar durante o período de descanso. A conclusão ajuda a explicar por que duas pessoas podem retornar de viagens semelhantes sentindo-se de maneiras completamente diferentes.

Uma viagem marcada por preocupações financeiras, conflitos, excesso de compromissos ou necessidade permanente de acompanhar o trabalho pode dificultar o descanso. Já um período no qual a pessoa consegue efetivamente reduzir as demandas e ter maior autonomia sobre seu tempo pode proporcionar melhores condições de recuperação.

Para o médico psiquiatra e professor da Afya Goiânia, Luís Claudio Bochenek, afastar-se temporariamente das pressões habituais pode funcionar como estratégia complementar de autocuidado.

“Quando a pessoa se afasta do contexto habitual de pressão, o cérebro tende a diminuir o estado de alerta constante. Isso favorece a redução dos níveis de cortisol, melhora a qualidade do sono e pode ampliar a sensação de vitalidade e motivação ao retornar às atividades. Além disso, experiências positivas vividas durante a viagem podem servir como ‘âncoras emocionais’, que o indivíduo acessa mentalmente em momentos futuros de estresse”, explica o psiquiatra.

Embora existam pesquisas investigando alterações fisiológicas durante períodos de descanso e viagens, os resultados ainda não permitem afirmar que qualquer viagem provoque necessariamente redução do cortisol ou melhora do sono em todas as pessoas. Esses efeitos podem variar de acordo com características individuais e com as condições em que o período de descanso ocorre.

5 motivos que ajudam a explicar por que viajar faz bem para a saúde mental

Viajar faz bem para a saúde mental Ciência explica efeitos das férias no estresse, cérebro e bem-estar

1. Cria uma oportunidade de recuperação do estresse

Um dos benefícios mais consistentes associados às férias está no afastamento temporário das demandas habituais. Durante a rotina, é comum lidar continuamente com prazos, compromissos, notificações, deslocamentos e responsabilidades. Quando existem poucas oportunidades para descansar, a sensação de sobrecarga pode aumentar.

As férias oferecem um intervalo maior dessas demandas e, quando existe uma verdadeira possibilidade de descanso, podem favorecer a recuperação. A desconexão psicológica do trabalho e conseguir deixar de pensar continuamente nas obrigações profissionais durante o período de folga, é considerada pela literatura sobre recuperação ocupacional um componente importante desse processo.

Por isso, afastar-se fisicamente do escritório enquanto se continua respondendo e-mails, acompanhando mensagens e solucionando problemas profissionais pode limitar a capacidade de descanso.

2. Ambientes novos exigem adaptação e podem favorecer a flexibilidade cognitiva

Conhecer um lugar diferente envolve observar caminhos, interpretar informações, tomar decisões e adaptar comportamentos. São demandas diferentes daquelas encontradas na repetição diária. Há evidências de que as férias podem estar associadas a mudanças em uma dimensão específica da cognição: a flexibilidade cognitiva.

Um estudo longitudinal publicado na revista Tourism Management avaliou trabalhadores antes e depois das férias e encontrou aumento da capacidade de produzir ideias pertencentes a diferentes categorias, indicador relacionado à flexibilidade cognitiva.

A professora de Psicologia da Afya Centro Universitário Itaperuna, Mariana Ramos, destaca a importância da quebra da rotina dentro de um conjunto mais amplo de cuidados:

“Um estilo de vida equilibrado favorece a regulação emocional e reduz a vulnerabilidade ao estresse crônico. Nesse contexto, viajar pode atuar como um recurso complementar de promoção de bem-estar, pois rompe a rotina automática, amplia estímulos cognitivos e sensoriais e favorece emoções positivas”, afirma.

3. O prazer pode começar antes mesmo da viagem

Escolher um destino, organizar passeios e imaginar os dias de descanso pode fazer com que parte das emoções positivas associadas às férias apareça antes do embarque.

Um estudo publicado no periódico Applied Research in Quality of Life acompanhou 1.530 pessoas, entre viajantes e não viajantes, e constatou que aqueles que tinham férias programadas apresentavam níveis de felicidade superiores antes da viagem.

Uma das explicações discutidas pelos pesquisadores foi justamente a antecipação das férias. Ter uma experiência agradável pela frente pode, portanto, contribuir para emoções positivas antes de ela acontecer.

4. Viagens podem criar oportunidades para fortalecer vínculos

Relações sociais de qualidade estão associadas ao bem-estar e são reconhecidas como um componente importante da saúde. Viajar com familiares, amigos ou parceiros pode oferecer mais tempo para convivência e criar oportunidades para compartilhar experiências fora das obrigações habituais.

Isso não significa que toda viagem fortaleça automaticamente os relacionamentos. Conflitos, expectativas diferentes e dificuldades durante o passeio também podem gerar estresse.

O potencial benefício está na oportunidade de reservar tempo para pessoas importantes e compartilhar experiências positivas.

Para quem viaja sozinho, a experiência pode proporcionar oportunidades de autonomia e interação social, mas os efeitos variam de acordo com características pessoais, circunstâncias e preferências individuais.

5. Ter autonomia durante as férias pode contribuir para o bem-estar

Decidir o que fazer, organizar o próprio horário e escolher como aproveitar o período de descanso aumenta a sensação de controle sobre o próprio tempo. E essa autonomia aparece nas pesquisas sobre férias.

No estudo de De Bloom e colegas, a sensação de controle sobre as atividades realizadas esteve relacionada a melhores experiências de saúde e bem-estar durante as férias. Isso também ajuda a explicar por que uma programação excessivamente rígida pode dificultar o descanso.

Transformar cada hora da viagem em uma obrigação pode reproduzir parte da pressão existente na rotina. Para algumas pessoas, deixar espaços livres na programação pode tornar o período mais relaxante.

E o sono?

Sono e saúde mental mantêm uma relação estreita. Dormir adequadamente é importante para funções cognitivas, regulação emocional e recuperação física. Ao mesmo tempo, estresse e diferentes transtornos mentais podem prejudicar a qualidade do sono.

Existem estudos que investigaram sono e bem-estar durante períodos de férias e encontraram alterações positivas em determinadas amostras. No entanto, os resultados não permitem afirmar que viajar necessariamente melhora o sono.

Dependendo das circunstâncias, a própria viagem pode prejudicá-lo. Mudança de fuso horário, deslocamentos noturnos, ambientes desconhecidos e alterações importantes nos horários habituais são fatores capazes de interferir no descanso.

Por isso, eventuais benefícios dependem das características da pessoa e de como as férias são organizadas.

É preciso viajar para longe para garantir benefícios para a saúde mental?

No estudo de De Bloom e colegas sobre férias prolongadas, os participantes ficaram, em média, 23 dias afastados, mas a duração do período teve pouca relação com as mudanças de saúde e bem-estar observadas durante e imediatamente depois das férias.

Os resultados reforçam que fatores relacionados à qualidade da experiência, como relaxamento, autonomia e prazer, também merecem atenção. Isso não significa que uma viagem curta ou um passeio próximo de casa produza exatamente os mesmos efeitos de férias prolongadas, essa equivalência não foi demonstrada pelo estudo.

Significa apenas que distância percorrida e duração das férias, isoladamente, não explicam todo o processo de recuperação.

Quando as férias viram mais uma fonte de estresse

Viajar também pode ser estressante. Atrasos, trânsito, problemas com hospedagem, gastos inesperados, conflitos entre acompanhantes, excesso de atividades e alterações do sono podem dificultar o descanso.

Há ainda a pressão para aproveitar cada minuto: conhecer muitos lugares, registrar tudo, cumprir roteiros extensos e transformar o período de lazer em uma sequência de obrigações.

Outro fator é a dificuldade de se afastar psicologicamente do trabalho. Continuar respondendo mensagens profissionais e solucionando problemas durante as férias pode reduzir a oportunidade de recuperação.

Por isso, os benefícios não dependem apenas de “estar viajando”, mas das condições concretas em que o período de descanso acontece.

Viajar pode fazer bem para a saúde mental, mas não é tratamento

Apesar dos possíveis benefícios, existe uma diferença fundamental entre promover bem-estar e tratar um transtorno mental. Viajar pode oferecer descanso, lazer, experiências prazerosas e afastamento temporário de determinadas fontes de estresse. Isso não transforma uma viagem em tratamento para depressão, transtornos de ansiedade, síndrome do pânico ou outras condições psiquiátricas.

A OMS destaca que existem tratamentos psicológicos eficazes para transtornos de ansiedade e outras condições de saúde mental. Dependendo do diagnóstico, da idade e da gravidade do quadro, medicamentos também podem ser considerados.

“Em casos de depressão moderada ou grave, ansiedade intensa ou síndrome do pânico, a prioridade deve ser o acompanhamento com profissionais de saúde mental. As viagens podem contribuir para o bem-estar, mas não substituem psicoterapia, acompanhamento psiquiátrico ou tratamentos indicados para cada paciente”, afirma Luís Claudio Bochenek.

Afinal, viajar faz bem para a saúde mental?

A resposta mais compatível com as evidências disponíveis é: viajar pode fazer bem, mas os efeitos dependem muito mais do contexto do que simplesmente do ato de viajar.

Estudos mostram que períodos de férias estão associados à melhora temporária de indicadores de saúde e bem-estar e podem proporcionar uma oportunidade importante de recuperação das demandas cotidianas.

Também existem pesquisas que encontraram aumento da flexibilidade cognitiva depois das férias e outras que identificaram emoções positivas já no período de antecipação de uma viagem.

Os benefícios, porém, não são permanentes nem universais. Eles dependem de fatores como possibilidade real de descanso, autonomia, condições financeiras, características individuais, qualidade das relações e nível de estresse durante a experiência.

A ciência, portanto, não permite afirmar que viajar “cura” ansiedade, depressão ou esgotamento. Também não sustenta a ideia de que seja necessário viajar para longe para cuidar da saúde mental.

O que as pesquisas indicam é que períodos de recuperação, relaxamento, autonomia e experiências prazerosas podem contribuir para o bem-estar, e as férias podem ser uma oportunidade para reunir esses elementos.

A viagem termina quando as malas são desfeitas. O cuidado com a saúde mental, não.


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Autor: João Pedro Oliveira

Apreciador de boas histórias, filmes e games. Repórter no portal Gazeta Culturismo.

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