Antiga capital de Goiás reúne arquitetura colonial, museus, tradições religiosas e a memória de Cora Coralina em um centro histórico reconhecido pela Unesco
A Cidade de Goiás, antiga Vila Boa e conhecida também como Goiás Velho, está localizada a cerca de 140 quilômetros de Goiânia e abriga um centro histórico reconhecido pela Unesco como Patrimônio Mundial desde dezembro de 2001. O título considera o conjunto urbano, arquitetônico e paisagístico que testemunha a ocupação e a colonização do Brasil Central nos séculos XVIII e XIX.
As origens da cidade estão ligadas às expedições conhecidas como bandeiras, que partiram principalmente de São Paulo em direção ao interior do território brasileiro. A antiga Vila Boa foi capital de Goiás e permaneceu como sede do governo estadual até 1937, quando a capital foi transferida para Goiânia.
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A Unesco incluiu o Centro Histórico da Cidade de Goiás na Lista do Patrimônio Mundial em 2001, pelos critérios culturais II e IV. Para a organização, o traçado urbano e a arquitetura da cidade representam um exemplo de adaptação de uma estrutura urbana de origem europeia às condições climáticas, geográficas e culturais da América do Sul.
A organização também destaca a adaptação do traçado à topografia dos dois lados do rio, além do emprego de materiais e técnicas construtivas locais. O bem inscrito possui 40,3 hectares, enquanto sua zona de amortecimento tem 43,5 hectares.
O Iphan passou a proteger monumentos da cidade individualmente na década de 1950 e, em 1978, tombou o conjunto arquitetônico, paisagístico e urbanístico do centro histórico. Segundo o instituto, a área preserva mais de 90% da arquitetura barroco-colonial original.
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A formação da cidade de Goiás ocorreu no contexto da exploração do interior brasileiro e da descoberta de ouro na região. A Unesco relaciona diretamente a origem do núcleo urbano à história das bandeiras paulistas.
A documentação oficial do Estado de Goiás registra a transferência da capital para Goiânia em 1937, por meio do Decreto nº 1.816, de 23 de março daquele ano. A mudança encerrou o período em que a antiga Vila Boa funcionava como sede administrativa estadual.
O Iphan aponta que a preservação do centro histórico permite acompanhar a evolução urbana da cidade desde o antigo núcleo minerador até o século XX. O conjunto protegido reúne construções de diferentes períodos e tipologias arquitetônicas.

A Casa de Cora Coralina, também conhecida como Casa Velha da Ponte, está às margens do Rio Vermelho e integra o conjunto histórico protegido da cidade. O imóvel onde a escritora viveu funciona como museu dedicado à sua trajetória e à sua produção literária.
O espaço preserva objetos relacionados à vida da escritora e se tornou um dos principais locais de memória cultural do município. A presença de Cora Coralina também se relaciona à tradição dos doces e à vida cotidiana da antiga capital.

O Museu das Bandeiras ocupa o antigo prédio construído para funcionar como Câmara e Cadeia de Vila Boa. A construção foi concluída em 1766 e passou a ter função museológica no século XX.
Segundo o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), o acervo é composto por 573 peças, entre objetos de arte sacra, mobiliário, vestuário, armamentos e utensílios domésticos. A coleção também reúne documentos relacionados à administração da região nos períodos colonial, imperial e republicano.
O museu destaca ainda objetos relacionados à presença negra, indígena e portuguesa na formação histórica de Goiás.

O Museu de Arte Sacra da Boa Morte está instalado na Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte, construção iniciada no século XVIII. Segundo o Ibram, o edifício corresponde ao período de 1762 a 1779.
O acervo reúne mais de 900 peças, incluindo objetos litúrgicos, prataria, indumentária e obras de José Joaquim da Veiga Valle, escultor e pintor goiano do século XIX. A presença de obras de Veiga Valle está entre os principais elementos da coleção.

O Chafariz de Cauda está entre os monumentos históricos protegidos na cidade de Goiás. Conforme informações do Iphan, o bem foi tombado individualmente em 1951, antes do tombamento do conjunto histórico realizado em 1978.
A presença do monumento ajuda a preservar a memória da infraestrutura urbana da antiga Vila Boa e integra o conjunto de construções históricas que caracterizam o centro da cidade.
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A Procissão do Fogaréu é uma das manifestações religiosas e culturais mais conhecidas da cidade de Goiás. A cerimônia representa a busca e a prisão de Jesus Cristo e tem como personagens os farricocos, homens encapuzados que percorrem as ruas com tochas acesas.
Segundo a Secretaria de Estado da Cultura, a tradição remonta ao século XVIII e há estimativa de que tenha começado em Goiás por volta de 1745. A manifestação desapareceu no início do século XX e foi reinventada a partir de 1965, com a criação da Organização Vilaboense de Artes e Tradições e pesquisas realizadas por seus integrantes junto à população local.
A cerimônia tem início na madrugada da quarta para a quinta-feira santa, diante do Museu de Arte Sacra da Boa Morte. Os farricocos seguem pelas ruas históricas até o Santuário de Nossa Senhora do Rosário e depois continuam em direção à Igreja de São Francisco de Paula, onde ocorre a representação da prisão de Cristo.
Em 2023, a Procissão do Fogaréu foi reconhecida como Patrimônio Cultural e Imaterial de Goiás pela Lei Estadual nº 21.855, publicada no Diário Oficial do Estado em 11 de abril daquele ano.

O Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA) é realizado na cidade de Goiás desde 1999 e reúne cinema, meio ambiente e cultura em uma programação que inclui exibições de filmes, debates, oficinas e atividades culturais.
Criado para discutir questões ambientais por meio do audiovisual, o festival se tornou um dos eventos culturais tradicionais da antiga capital goiana. O evento recebe obras cinematográficas do mundo todo, em exibições e mostras competitivas.

A identidade cultural da Cidade de Goiás vai além dos casarões, igrejas e monumentos que formam o centro histórico. O Iphan reconhece entre os elementos da tradição local manifestações como música, poesia, culinária e festas populares, além das técnicas construtivas que ajudam a caracterizar a arquitetura da antiga capital.
A gastronomia ocupa um espaço importante nessa memória. Cora Coralina, além de escritora, ficou conhecida pelo trabalho como doceira, e seus doces permanecem associados à história e à identidade cultural de Goiás. A tradição pode ser percebida em diferentes pontos da cidade, onde receitas e sabores regionais fazem parte da experiência de moradores e visitantes.
Entre as opções que chamam atenção está o sorvete de baru, preparado com a castanha de uma árvore típica do Cerrado. A sobremesa é encontrada na Sorveteria do Coreto, no centro histórico, e utiliza um ingrediente associado à biodiversidade e à culinária regional.
A oferta gastronômica também inclui restaurantes que trabalham com ingredientes tradicionais de Goiás, como pequi, guariroba, milho e carne suína, presentes em preparações que ajudam a preservar sabores característicos da culinária goiana.
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