Cultura geek pode virar patrimônio imaterial e ganhar data oficial em Goiás

Dois projetos apresentados na Alego criam o Dia Estadual da Cultura Geek e propõem reconhecer o movimento

Cultura geek pode virar patrimônio imaterial e ganhar data oficial em Goiás

A cultura geek em Goiás poderá ganhar uma data oficial no calendário estadual e o reconhecimento como Patrimônio Cultural Imaterial. Dois projetos de lei apresentados pela deputada estadual Rosângela Rezende (Agir) na Assembleia Legislativa do Estado de Goiás (Alego), em agosto de 2026, tratam do tema e foram encaminhados à Comissão de Constituição, Justiça e Redação (CCJ), etapa responsável pela análise jurídica e formal das propostas.

As matérias abrangem um universo que reúne fãs, artistas, desenvolvedores, jogadores, cosplayers, ilustradores, escritores, criadores de conteúdo e empreendedores ligados a áreas como videogames, quadrinhos, RPG, ficção científica, fantasia, tecnologia, mangás e animes. Além do reconhecimento cultural, os textos associam esse público à economia criativa e à realização de eventos no Estado.

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Dia Estadual da Cultura Geek seria celebrado em novembro

O projeto de lei nº 16899/26 propõe a criação do Dia Estadual da Cultura Geek, previsto para o primeiro sábado de novembro de cada ano. A iniciativa pretende inserir a data no calendário goiano e incentivar atividades culturais, artísticas, tecnológicas e criativas relacionadas ao segmento.

A proposta também cita a realização de encontros especializados em Goiás. Entre os exemplos mencionados estão GoGame, Cerrado Geek e Cerrado Play, eventos que aproximam diferentes públicos ligados à cultura pop, aos jogos e à tecnologia.

Na justificativa do projeto, a autora relaciona essas iniciativas a atividades econômicas e profissionais que vão além do entretenimento.

“Eventos como o GoGame, o Cerrado Geek e o Cerrado Play demonstram o crescimento desse setor no Estado, promovendo a integração entre cultura, tecnologia, entretenimento, educação e inovação, além de impulsionarem o turismo de eventos, o comércio local e a geração de oportunidades para profissionais e pequenos empreendedores”, afirma a justificativa da proposta apresentada pela deputada Rosângela Rezende.

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Cultura geek pode ser reconhecida como patrimônio imaterial de Goiás

A segunda proposta, registrada como projeto de lei nº 16900/26, busca reconhecer a cultura geek como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado de Goiás.

O texto relaciona o movimento às transformações provocadas pela tecnologia e pela valorização do conhecimento na economia. A justificativa aponta ainda possíveis conexões entre atividades comuns nesse universo e habilidades como pensamento lógico, criatividade, colaboração, resolução de problemas e alfabetização digital.

O conceito de patrimônio cultural imaterial tem alcance específico. Segundo a Unesco, ele abrange práticas, representações, expressões, conhecimentos e habilidades que comunidades, grupos e, em determinadas situações, indivíduos reconhecem como parte de seu patrimônio cultural. A organização também considera que esse patrimônio é vivo e pode ser recriado pelas próprias comunidades ao longo do tempo.

Caso o projeto em Goiás avance no Legislativo, o reconhecimento estadual fica relacionado à dimensão cultural e comunitária do movimento geek, formado por práticas, encontros, produções e relações estabelecidas entre seus participantes.

Entidades do setor defendem reconhecimento da cultura geek em Goiás

A apresentação das propostas também provocou manifestações de organizações que atuam diretamente com jogos digitais, tecnologia e eventos ligados ao universo geek no Estado.

A Associação Goiana de Jogos Digitais (AGES) avaliou que as iniciativas podem ampliar o reconhecimento dos profissionais e empreendedores envolvidos nesse mercado.

“Como entidade que atua pelo desenvolvimento de jogos, tecnologia e economia criativa em nosso Estado, a AGES celebra iniciativas que valorizam quem cria, produz, empreende e movimenta essa cultura todos os dias. Seguimos trabalhando para que a cultura geek ocupe cada vez mais espaços, gere oportunidades e seja reconhecida por sua relevância cultural, social e econômica em Goiás”, ressaltou a AGES.

A Cerrado Geek, produtora de eventos do segmento em Goiás e também citada na justificativa do projeto que cria a data estadual, se manifestou sobre a proposta. A organização lembrou a realização da primeira edição do Cerrado Geek em Rio Verde e destacou o papel dos eventos na aproximação de diferentes públicos.

“Ficamos muito felizes em ver essa estrada de valorização e reconhecimento da cultura geek e digital em Goiás sendo construída! Tivemos a honra de realizar a primeira edição do Cerrado Geek em Rio Verde, e foi emocionante ver como a população abraçou o evento e como esses espaços conseguem reunir jovens, famílias, artistas e comunidades de forma tão calorosa. Levar esse acesso, lazer, cultura e tecnologia para cada vez mais cidades de Goiás faz parte da nossa missão. Com certeza, um Projeto de Lei como esse fortalece quem já trabalha pela cultura geek no estado e abre caminhos para que ela chegue ainda mais longe. Seguimos juntos construindo esse futuro! ”, destacou a Cerrado Geek.

Economia criativa empregava 7,79 milhões de pessoas no Brasil

A dimensão econômica mencionada nos projetos encontra paralelo em dados nacionais sobre economia criativa, campo que inclui diferentes atividades culturais, tecnológicas e de produção intelectual.

Levantamento do Observatório Itaú Cultural apontou 7.793.534 trabalhadores na Economia da Cultura e das Indústrias Criativas no terceiro trimestre de 2024. O contingente havia crescido 3% em um ano, com acréscimo de aproximadamente 228 mil postos de trabalho entre os terceiros trimestres de 2023 e 2024.

O levantamento também identificou diferenças importantes dentro desse mercado. No terceiro trimestre de 2024, a remuneração média da economia criativa estava em aproximadamente R$ 4,8 mil, ante R$ 3,2 mil no conjunto da economia brasileira.

Os números, que não representam especificamente o mercado geek, ajudam a contextualizar o ambiente econômico mais amplo no qual estão inseridas atividades relacionadas a tecnologia, desenvolvimento de jogos, audiovisual, design, produção cultural e entretenimento.

Cultura geek nasceu de comunidades de fãs e ganhou alcance global

O conceito de cultura geek reúne comunidades ligadas a diferentes expressões da cultura pop e da tecnologia. O fenômeno não se limita ao consumo de produtos culturais. Fãs também criam conteúdos, participam de convenções, organizam comunidades, produzem fantasias, jogam RPG, colecionam itens e desenvolvem vínculos sociais em torno de personagens, histórias e franquias.

Parte dessa trajetória está associada à expansão da ficção científica e dos quadrinhos durante o século XX. Personagens como Superman, universos de fantasia e comunidades dedicadas a obras como “Star Trek” e “O Senhor dos Anéis” ajudaram a ampliar a formação de grupos de fãs.

O surgimento de “Dungeons & Dragons” e a expansão dos videogames acrescentaram novas formas de participação. Posteriormente, computadores pessoais e internet permitiram a formação de comunidades que ultrapassaram fronteiras geográficas.

No Brasil, a influência japonesa teve papel relevante na formação desse público. Nas décadas de 1980 e 1990, produções como “Jaspion”, “Changeman”, “Cavaleiros do Zodíaco”, “Dragon Ball” e “Pokémon” alcançaram diferentes gerações, enquanto videogames, histórias em quadrinhos e RPG conquistavam novos públicos.

Com a internet, as redes sociais e a realização de eventos especializados, essas comunidades passaram a ocupar espaços cada vez mais diversos na produção cultural, no comércio, na tecnologia e no entretenimento.

Projetos passam primeiro pela análise jurídica da CCJ

Os dois projetos apresentados por Rosângela Rezende foram encaminhados à Comissão de Constituição, Justiça e Redação da Alego.

De acordo com a própria Assembleia Legislativa, a CCJ verifica aspectos como constitucionalidade, legalidade e técnica legislativa das proposições. A análise do colegiado não corresponde, por si só, à aprovação definitiva de um projeto.

Segundo a Alego, depois dessa etapa, matérias acolhidas pela CCJ podem ser distribuídas às comissões relacionadas ao tema para avaliação de mérito antes de seguirem para as demais fases da tramitação legislativa.

Assim, tanto a criação do Dia Estadual da Cultura Geek quanto o reconhecimento da cultura geek como patrimônio imaterial de Goiás ainda dependem do andamento dos respectivos processos na Assembleia.


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Autor: Pollyana Cicatelli

Jornalista especialista em Cultura, Arte e Entretenimento. Com ampla experiência em assessoria de imprensa para eventos, também compôs redações de vários veículos de comunicação. Já atuou como agente de viagens e agora se aventura no cinema como roteirista de animação. Editora e administradora do portal Gazeta Culturismo

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