Especialista afirma que não existe protocolo cientificamente comprovado capaz de tornar seguro o uso de anabolizantes para hipertrofia extrema
A morte do influenciador fitness Gabriel Ganley, ocorrida há cerca de um mês, voltou a colocar em evidência os riscos associados ao uso de anabolizantes para ganho de massa muscular. Embora o debate tenha perdido intensidade nas últimas semanas, especialistas defendem que a discussão permanece necessária diante da crescente disseminação da ideia de que essas substâncias poderiam ser utilizadas de forma segura com acompanhamento médico.
Segundo o médico nutrólogo e intensivista José Israel Sanchez Robles, essa percepção não encontra respaldo científico quando o objetivo é a hipertrofia muscular em níveis elevados, prática comum em ambientes ligados ao fisiculturismo e à cultura da performance física divulgada nas redes sociais.
A crença de que o acompanhamento profissional seria suficiente para eliminar os riscos dos anabolizantes ganhou espaço nos últimos anos. O argumento costuma ser defendido por atletas, influenciadores digitais e até profissionais ligados ao setor esportivo.
Poucos dias antes da morte de Gabriel Ganley, o influenciador Rodrigo Góes comentou publicamente que muitos jovens utilizam doses elevadas dessas substâncias, destacando a importância do acompanhamento médico durante o processo. Em diferentes ocasiões, nomes conhecidos do fisiculturismo também manifestaram posicionamentos semelhantes ao defender a orientação profissional para definição de protocolos e dosagens.
Entretanto, especialistas alertam que a questão é muito mais complexa do que aparenta.
“Atualmente, não existe um protocolo cientificamente reconhecido capaz de garantir a segurança do uso de anabolizantes em doses destinadas ao ganho expressivo de massa muscular”.
De acordo com José Israel Sanchez Robles, os riscos se tornam significativamente maiores quando as substâncias são utilizadas em quantidades muito superiores às produzidas naturalmente pelo organismo.
“Quando falamos de fisiculturismo e hipertrofia extrema, estamos nos referindo a doses muito superiores às fisiológicas. Nessas circunstâncias, os riscos deixam de representar uma possibilidade remota e passam a integrar o próprio processo”, afirma o médico.
A literatura científica tem apontado que o uso prolongado de esteroides anabolizantes androgênicos pode provocar alterações em diversos sistemas do corpo humano. Estudos publicados em revistas médicas internacionais e revisões conduzidas por instituições de pesquisa identificaram impactos cardiovasculares, metabólicos, hormonais, hepáticos e psiquiátricos associados ao consumo dessas substâncias.
Entre as complicações frequentemente relatadas por usuários estão:
De acordo com pesquisas citadas por especialistas da área, uma parcela significativa dos usuários relata algum tipo de efeito adverso durante ou após os ciclos de utilização.
Dados publicados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e por entidades médicas internacionais também apontam preocupação crescente com o uso não terapêutico dessas substâncias, especialmente entre jovens adultos motivados por objetivos estéticos.
Outro ponto frequentemente discutido é o papel dos exames laboratoriais durante o uso de anabolizantes. Embora o monitoramento médico seja importante para identificar alterações precoces, especialistas afirmam que ele não elimina os riscos.
“Os exames são importantes para identificar alterações e fatores de risco, mas não representam uma garantia de proteção. Algumas complicações podem evoluir de forma silenciosa por anos e se manifestar de maneira súbita, inclusive em indivíduos que mantêm acompanhamento médico regular”, completa José Israel.
Essa característica preocupa médicos porque diversas alterações cardiovasculares podem permanecer assintomáticas durante longos períodos, sendo detectadas apenas quando já existe comprometimento importante da saúde.
Segundo o especialista, a atuação médica deve estar voltada para orientação baseada em evidências científicas e redução de danos, sem transmitir a ideia de que existe uma forma totalmente segura de utilizar doses elevadas de anabolizantes.
“É fundamental acolher o paciente sem julgamentos, oferecer informações baseadas em evidências científicas e atuar na redução dos riscos envolvidos. Isso é diferente de transmitir a ideia de que existe uma forma segura de utilizar doses elevadas de anabolizantes, porque essa segurança simplesmente não foi demonstrada pela ciência”, ressalta.
Entidades médicas brasileiras, como a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), também alertam que o uso de esteroides anabolizantes sem indicação terapêutica pode provocar consequências graves para a saúde e exige acompanhamento rigoroso quando utilizado em contextos clínicos específicos.
A popularização de conteúdos voltados para transformação corporal, estética e performance física tem ampliado a exposição de adolescentes e jovens adultos a informações sobre anabolizantes.
Especialistas observam que relatos de ganhos musculares rápidos costumam receber grande destaque nas plataformas digitais, enquanto complicações médicas e efeitos adversos tendem a ter menor visibilidade.
“Muitos usuários acabam sendo influenciados por relatos de sucesso e transformações rápidas, enquanto os efeitos adversos raramente recebem a mesma visibilidade. O caso de Gabriel Gama reforça a importância de uma discussão mais responsável sobre os riscos associados ao uso de anabolizantes”, conclui José Israel.
A discussão ganhou novos contornos após a morte de Gabriel Ganley, que levou especialistas a defenderem um debate mais amplo sobre saúde, pressão estética, cultura da performance e os limites da busca por resultados físicos acelerados.
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