Material reúne orientações práticas para hotéis, aeroportos, eventos e atrativos turísticos receberem pessoas neurodivergentes
O Ministério do Turismo lançou o “Guia Para Atender Bem Turistas Neurodivergentes”, documento criado para ampliar a acessibilidade no setor turístico brasileiro. O lançamento ocorreu às 14h, durante o Salão do Turismo, em Fortaleza, no Ceará. A proposta reúne medidas práticas para melhorar a experiência de pessoas neurodivergentes em viagens, hospedagens, eventos e espaços públicos.
O guia foi elaborado a partir de uma pesquisa nacional realizada pela Universidade do Estado do Amazonas, em parceria com o Ministério do Turismo. O levantamento ouviu 761 pessoas entre fevereiro e março de 2026, incluindo autistas, pessoas com TDAH, dislexia, familiares e profissionais ligados ao atendimento turístico. Os resultados revelaram dificuldades recorrentes enfrentadas durante experiências de lazer e deslocamento.
Entre os principais problemas relatados aparecem situações relacionadas ao despreparo das equipes, excesso de estímulos sensoriais e falta de acolhimento adequado. Segundo os participantes, barreiras comportamentais e falhas na comunicação causam impactos diretos na permanência e no conforto em ambientes turísticos.
Para o ministro do Turismo, Gustavo Feliciano, o material representa uma tentativa de ampliar o acesso ao turismo de maneira inclusiva. “Esse material vai contribuir para que todos vivam as experiências turísticas com conforto, respeito e dignidade. Essa é uma diretriz do governo do presidente Lula, de cuidar das pessoas e ampliar o acesso a direitos”, afirmou.
Os dados do levantamento mostram que os desafios não estão apenas na estrutura física dos espaços. A pesquisa apontou que o atendimento e a forma como a experiência turística é conduzida têm forte impacto na sensação de segurança e acolhimento das pessoas neurodivergentes.
Entre os entrevistados, 90,1% disseram já ter enfrentado julgamentos relacionados a comportamentos neurodivergentes durante viagens ou passeios. Outros 89,8% afirmaram que funcionários de estabelecimentos turísticos não compreendem suas necessidades específicas. A ausência de flexibilidade no atendimento foi mencionada por 87,5% dos participantes.
A pesquisa também revelou dificuldades ligadas ao respeito e à comunicação. Cerca de 83,7% relataram falta de acolhimento ao informar necessidades específicas, enquanto 79% apontaram desrespeito à autonomia e à dignidade. Outro ponto recorrente foi a ausência de espaços adequados para regulação sensorial.
O levantamento mostrou ainda que o tempo de espera sem previsibilidade incomoda grande parte dos entrevistados. Aproximadamente 77% destacaram dificuldade em lidar com filas e ambientes desorganizados. Já 71,5% afirmaram sentir falta de informações claras sobre adaptações disponíveis em hotéis, aeroportos e atrações turísticas.
Os estímulos sensoriais surgiram como fatores centrais na experiência de pessoas neurodivergentes durante viagens. O barulho intenso apareceu como um dos principais incômodos, citado por 72,7% dos participantes da pesquisa.
Além do som elevado, o levantamento identificou desconforto causado por iluminação forte, excesso de movimento, ambientes lotados e mudanças inesperadas na programação. Segundo os entrevistados, essas situações podem gerar ansiedade, insegurança e sobrecarga sensorial durante atividades turísticas.
Outro ponto observado pelos pesquisadores envolve a falta de previsibilidade nos ambientes. Espaços sem orientação clara, excesso de informação visual e ausência de comunicação antecipada acabam dificultando a permanência de muitas pessoas neurodivergentes em atrações culturais, aeroportos e eventos.
Diante desse cenário, o guia propõe ações simples para reduzir esses impactos. O documento recomenda adaptações em hotéis, restaurantes, meios de hospedagem, aeroportos e grandes espetáculos, buscando tornar os ambientes mais organizados e previsíveis.
Entre as orientações presentes no material estão a criação de áreas silenciosas para regulação sensorial, organização de rotas alternativas e redução de aglomerações. O guia também sugere sinalização clara, flexibilização de procedimentos e possibilidade de pausas durante atividades.
Outra recomendação envolve a comunicação antecipada sobre estímulos do ambiente. O documento orienta estabelecimentos turísticos a informarem previamente intensidade sonora, tempo de espera e características visuais dos espaços, ajudando visitantes a planejarem melhor suas experiências.
O treinamento das equipes aparece como uma das prioridades da pesquisa. O preparo adequado dos profissionais foi apontado como principal solução por 44,6% das pessoas neurodivergentes, 55,6% dos familiares e 63,3% dos profissionais entrevistados.
Segundo a coordenadora da pesquisa, a professora doutora Marklea da Cunha Ferst, pequenas mudanças podem gerar impactos significativos na inclusão turística. “O que a pesquisa mostra é que a inclusão no turismo não depende apenas de grandes mudanças estruturais. Pequenos ajustes, quando bem orientados, podem gerar impactos significativos na experiência”, explicou.
Felipe Cordeiro é poeta, escritor e radialista com ampla experiência no universo da comunicação. Nordestino, carrega na voz e na escrita a força da cultura popular. Apaixonado por música, arte e pelas histórias que brotam do cotidiano, dedica-se aos estudos e vive intensamente o que a rua, a noite e a vida têm a ensinar.
Copyright © 2024 // Todos os direitos reservados.