Novas diretrizes internacionais estabelecem cuidados diferentes conforme a idade; no Brasil, consumo de ultraprocessados chega a 84% entre crianças acompanhadas pelo sistema público de saúde
A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou suas primeiras diretrizes globais para o tratamento da obesidade infantil, estabelecendo recomendações para crianças e adolescentes de diferentes faixas etárias. Divulgados em 7 de outubro, os documentos orientam profissionais de saúde sobre alimentação, atividade física, acompanhamento psicológico e situações específicas que podem exigir medicamentos.
Nas últimas três décadas, a prevalência da obesidade infantil nessa faixa etária quadruplicou, passando de 2% em 1990 para 8% em 2024. Ao todo, cerca de 400 milhões de crianças e adolescentes apresentavam excesso de peso, incluindo aqueles com obesidade. Diante desse cenário, a endocrinologista pediátrica Marília Barbosa destaca a necessidade de acompanhamento médico desde os primeiros sinais da condição.
➡️ Clique aqui e entre no canal do WhatsApp para receber notícias, de forma gratuita.

As novas diretrizes da OMS dividem as recomendações em dois grupos. Para crianças com menos de 10 anos, a organização não recomenda medicamentos contra a obesidade, cirurgia bariátrica ou dispositivos destinados à perda de peso. Nessa faixa etária, o cuidado deve priorizar intervenções estruturadas na alimentação, na atividade física, no sono e no comportamento, com participação dos familiares.
Já para adolescentes de 10 a 19 anos, profissionais podem considerar medicamentos aprovados quando o acompanhamento supervisionado não alcançar os resultados esperados. Em situações específicas de obesidade grave na adolescência, a OMS também admite a avaliação de cirurgia bariátrica sob critérios rigorosos. Entretanto, essas possibilidades não substituem o acompanhamento contínuo. Para Marília Barbosa, cada decisão precisa considerar as características clínicas e o desenvolvimento do paciente.
“Não existe uma única estratégia que funcione da mesma maneira para todas as crianças. O plano de cuidado precisa levar em conta a idade, a trajetória de crescimento, as condições clínicas, a rotina familiar e os aspectos emocionais. O objetivo é melhorar a saúde e a qualidade de vida, respeitando o desenvolvimento de cada paciente”, afirma.
>> Leia também: Felca relata sofrimento com fobia social; conheça os sinais da doença
Diferentemente da avaliação realizada em adultos, o diagnóstico da obesidade infantil não depende apenas de um valor fixo do Índice de Massa Corporal (IMC). O Ministério da Saúde orienta os profissionais a considerar peso, altura, idade e sexo, utilizando as curvas de crescimento da OMS. Esses gráficos permitem acompanhar o estado nutricional durante a infância e a adolescência. Dessa forma, o médico consegue identificar alterações na trajetória de crescimento e no ganho de peso ao longo das consultas.
O acompanhamento também considera a velocidade com que o IMC aumenta, mesmo antes de a criança atingir os critérios de classificação para sobrepeso ou obesidade. No Brasil, a Caderneta da Criança reúne gráficos e registros que auxiliam essa avaliação, enquanto sua versão digital permite consultar informações de crescimento registradas nos sistemas do SUS. Por isso, os profissionais recomendam acompanhar a evolução das medidas ao longo do tempo, em vez de interpretar uma pesagem isolada como diagnóstico definitivo.

No Brasil, os hábitos alimentares aparecem entre os indicadores acompanhados pelo Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan). Dados de 2024 mostram que 79% das crianças de 2 a 4 anos monitoradas pelo sistema consumiram alimentos ultraprocessados. Entre aquelas de 5 a 9 anos, o percentual chegou a 84%, enquanto o índice alcançou 81% entre os adolescentes acompanhados. Os números se referem à população registrada no sistema, e não representam necessariamente todas as crianças brasileiras.
O Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (Enani) também identificou a presença desses produtos desde os primeiros anos de vida. Em média, os ultraprocessados representavam 24,7% das calorias diárias de crianças menores de cinco anos, com participação superior a 30% entre aquelas de 2 a 4 anos. Entre os exemplos estão refrigerantes, salgadinhos, biscoitos recheados e produtos industrializados prontos para consumo. Enquanto isso, o Guia Alimentar do Ministério da Saúde recomenda priorizar alimentos in natura ou minimamente processados e evitar ultraprocessados na alimentação infantil.
As recomendações internacionais estabelecem que o tratamento da obesidade infantil deve combinar diferentes medidas, incluindo orientação alimentar, atividades físicas e estratégias para modificar hábitos cotidianos.
Nesse processo, pais e responsáveis participam das decisões e do acompanhamento, especialmente quando os pacientes ainda dependem dos adultos para organizar refeições e atividades. A endocrinologista pediátrica Marília Barbosa também chama atenção para a influência de fatores biológicos e ambientais no desenvolvimento da doença.
“A obesidade na infância precisa ser abordada com seriedade, mas também com acolhimento. Estamos falando de uma doença multifatorial, influenciada por aspectos biológicos, genéticos, comportamentais e ambientais. Por isso, o cuidado deve considerar a realidade da criança e de sua família, sem culpabilizar ou estigmatizar”, explica.
De acordo com a OMS, o acompanhamento pode incluir profissionais de diferentes especialidades, conforme as necessidades individuais. Já as intervenções digitais recebem recomendação condicional e devem contar com supervisão dos pais ou responsáveis.
Antes das novas orientações clínicas de outubro, a OMS já havia publicado, em 27 de janeiro de 2026, um documento internacional dedicado à alimentação saudável nas escolas. As recomendações abordam a qualidade das refeições, os produtos oferecidos ou comercializados nos estabelecimentos e a organização dos ambientes alimentares. Entre os objetivos estão ampliar a disponibilidade de alimentos nutritivos e reduzir a oferta de produtos com excesso de açúcar, sal e gorduras.
No Brasil, o Ministério da Saúde também orienta famílias a oferecer alimentos variados e organizar refeições adequadas à idade. Entretanto, a prevenção da obesidade em crianças e adolescentes envolve outros elementos da rotina, como oportunidades para brincar, praticar atividades físicas e dormir adequadamente.
“A prevenção começa nas oportunidades que a criança tem no dia a dia: acesso a alimentos variados, refeições organizadas, brincadeiras, atividade física, sono adequado e participação da família. Essas condições precisam ser construídas de forma realista, sem a expectativa de uma rotina perfeita”, destaca Marília.

A saúde emocional de crianças com obesidade aparece nas novas recomendações da OMS, que orienta profissionais a reconhecer possíveis situações de ansiedade, depressão, baixa autoestima e isolamento. A organização também identifica o bullying e a discriminação como experiências capazes de prejudicar o bem-estar dos pacientes.
Por isso, o acompanhamento clínico precisa considerar não somente as medidas corporais, mas também as relações familiares, escolares e sociais. Segundo Marília Barbosa, comentários sobre a aparência e comparações entre crianças podem dificultar o cuidado.
“Comentários constrangedores, comparações e cobranças excessivas podem aumentar o sofrimento e dificultar a adesão ao cuidado. É fundamental que a criança se sinta acolhida e que a família receba orientação para participar do tratamento de maneira positiva”, explica.
Nesse contexto, as diretrizes recomendam intervenções adequadas ao desenvolvimento de cada paciente, com participação familiar e atenção aos possíveis efeitos emocionais do tratamento.
O acompanhamento da obesidade infantil permite investigar condições associadas, incluindo alterações metabólicas, diabetes tipo 2 e fatores de risco para doenças cardiovasculares. Durante a avaliação, o pediatra pode examinar o histórico familiar, a evolução do crescimento e outros sinais clínicos.
Quando necessário, também pode solicitar exames complementares ou encaminhar a criança para acompanhamento especializado. Dessa maneira, a investigação considera a saúde geral do paciente, sem limitar a consulta à quantidade de peso que ele apresenta.
A OMS classifica a obesidade como uma doença crônica que pode apresentar recorrências, razão pela qual recomenda acompanhamento contínuo. Entretanto, o tratamento não deve estabelecer metas iguais para pacientes em diferentes estágios de crescimento.
Para as famílias, a orientação é procurar avaliação pediátrica diante de mudanças persistentes na trajetória de peso ou de preocupações relacionadas à alimentação e ao desenvolvimento, sem iniciar dietas restritivas ou medicamentos por conta própria.
ÚLTIMAS NOTÍCIAS
Jornalista e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás (UFG), fascinada pelas narrativas do cinema, das séries, dos games e da literatura.
Copyright © 2024 // Todos os direitos reservados.