Felca relata sofrimento com fobia social; conheça os sinais da doença

Após relatar bullying, isolamento e uso de álcool para conseguir interagir, influenciador chama atenção para condição que provoca medo intenso de julgamentos

fobia social

O influenciador Felca, de 28 anos, revelou nesta terça-feira (20 de outubro) que sofre de fobia social, condição psicológica que provoca medo intenso de ser julgado, observado ou humilhado em situações cotidianas. Em um vídeo publicado após meses de afastamento, o criador de conteúdo relatou episódios de bullying, agressões físicas e dificuldades para interagir com outras pessoas.

O transtorno também o levou a recorrer ao álcool para conseguir participar de compromissos profissionais. Em uma dessas ocasiões, ele sofreu uma queda e fraturou duas costelas após consumir uma grande quantidade de bebida alcoólica. Conhecida clinicamente como transtorno de ansiedade social (TAS), a condição pode comprometer relacionamentos, estudos, carreira e atividades simples, como fazer uma ligação ou conversar com desconhecidos.

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Felca relaciona fobia social ao bullying na adolescência

Felca contou que começou a sofrer bullying e agressões físicas aos 12 anos, durante o período escolar. Entre os episódios relatados está uma agressão cometida por cinco estudantes dentro de um banheiro. Segundo o influenciador, essas experiências contribuíram para o desenvolvimento de um medo persistente de interações sociais. Anos depois, mesmo trabalhando com vídeos para milhões de pessoas, continuou enfrentando dificuldades para frequentar ambientes públicos e participar de eventos profissionais.

O criador de conteúdo também revelou que utilizava bebidas alcoólicas para conseguir socializar, chegando a carregar vodca durante compromissos. Depois de sete meses afastado das redes, anunciou um desafio pessoal de 90 dias para enfrentar gradualmente situações sociais, além de ações de conscientização contra o bullying em escolas.

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O que é fobia social e como identificar o transtorno

fobia social

A fobia social é caracterizada pelo medo persistente e desproporcional de receber avaliações negativas em situações sociais. A pessoa pode experimentar ansiedade intensa ao falar em público, participar de reuniões, conhecer desconhecidos ou até comer diante de outras pessoas.

Segundo Gabriel Mendes, psicólogo da Unimed Goiânia e especialista em terapia cognitivo-comportamental, a principal diferença entre o transtorno e a timidez está na intensidade do sofrimento e nas limitações que ele provoca.

“A principal diferença para a timidez está na intensidade do sofrimento, na persistência do medo e principalmente, no impacto sobre a vida. Uma pessoa tímida pode sentir desconforto ao conhecer alguém, mas geralmente consegue atravessar essa situação sem que isso comprometa suas escolhas. Já alguém com transtorno de ansiedade social pode deixar de fazer amizades, recusar oportunidades profissionais ou evitar experiências importantes por causa desse medo”, ressalta.

O Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos (NIMH) estabelece que, para o diagnóstico, o medo costuma persistir por pelo menos seis meses e comprometer atividades cotidianas. Porém, a pessoa não precisa esperar esse período para buscar ajuda. A avaliação clínica considera a frequência dos sintomas, o sofrimento apresentado e os prejuízos nas relações pessoais, acadêmicas ou profissionais.

Sintomas incluem tremores e isolamento

Os principais sintomas da fobia social podem ser físicos, emocionais e comportamentais. Entre as manifestações mais frequentes estão taquicardia, suor excessivo, tremores, tontura, náuseas e tensão muscular. Já no comportamento, o transtorno pode provocar dificuldade para manter contato visual, cancelamento de compromissos e antecipação constante de situações negativas.

Para Lacerda Cavalcante, psicólogo da Unimed Goiânia com especialização em neuropsicologia, dois comportamentos merecem atenção especial.

“Falando objetivamente dos sinais que esse tipo de transtorno dá, a gente tem dois que são preponderantes, que é a esquiva e o isolamento”, destaca.

A esquiva ocorre quando a pessoa evita experiências que considera ameaçadoras, enquanto o isolamento social pode reduzir progressivamente sua convivência com outras pessoas. Gabriel Mendes explica que cancelar um compromisso costuma produzir alívio imediato, mas esse comportamento pode intensificar o transtorno.

Medo de julgamento prejudica trabalho e relacionamentos

O transtorno de ansiedade social pode comprometer atividades acadêmicas e profissionais mesmo quando a pessoa possui conhecimento e habilidades suficientes para realizá-las. Um estudante pode saber a resposta de uma pergunta, mas permanecer em silêncio por receio de errar diante dos colegas. Da mesma forma, um trabalhador qualificado pode evitar entrevistas, reuniões e oportunidades de promoção.

Lacerda Cavalcante descreve como essas limitações podem atingir diferentes áreas da vida.“Isso acaba destruindo relacionamentos, paralisa a carreira por medo de exposição e leva a pessoa ao abandono dos estudos e de outras partes importantes da vida. É o medo do julgamento anulando a vida prática”, afirma.

Entretanto, nem sempre o sofrimento é facilmente identificado. Gabriel Mendes observa que pessoas aparentemente tranquilas ou profissionalmente competentes podem enfrentar ansiedade intensa em situações sociais.

Por isso, a capacidade de conversar em determinados ambientes não descarta a existência do transtorno. Em alguns casos, as dificuldades aparecem principalmente diante de desconhecidos, apresentações públicas ou situações que envolvem avaliações.

Bullying pode contribuir para desenvolver o transtorno

As experiências relatadas por Felca levantam questões sobre as consequências psicológicas da violência escolar. Segundo Gabriel Mendes, episódios repetidos de bullying, humilhação e rejeição podem contribuir para o desenvolvimento da ansiedade social, especialmente durante a infância e a adolescência.

Entretanto, o transtorno não possui uma causa única, pois seu surgimento também pode envolver predisposições individuais, ambiente familiar e outras experiências de vida.

“Quando uma pessoa é ridicularizada, ela pode começar a associar a exposição social à ameaça. Em vez de compreender que foi vítima de uma situação de violência, pode internalizar a ideia de que existe algo errado consigo mesma ou de que será inevitavelmente rejeitada.”

Com o tempo, essas experiências podem provocar medo constante de avaliações negativas, mesmo em ambientes que não oferecem ameaças reais. Uma risada entre colegas, por exemplo, pode parecer uma provocação direcionada à pessoa.

Já um comentário neutro pode ser interpretado como crítica. Gabriel Mendes ressalta que nem todos que sofreram bullying desenvolvem fobia social e que a história clínica de cada indivíduo precisa ser analisada separadamente.

Álcool pode agravar sintomas da ansiedade social

O relato de Felca também chama atenção para o uso de álcool como estratégia para enfrentar situações sociais. Algumas pessoas recorrem à bebida para diminuir a insegurança antes de festas, encontros ou compromissos profissionais.

Embora o consumo possa provocar uma sensação temporária de desinibição, não trata as causas do transtorno e pode aumentar o risco de dependência. Lacerda Cavalcante identifica esse comportamento entre os sinais de alerta. “Comportamentalmente, a pessoa cancela compromissos e até recorre a muletas sociais, como por exemplo o uso do álcool para conseguir sair de casa, para poder interagir com outras pessoas.”

O consumo de bebidas alcoólicas para lidar com a ansiedade também pode dificultar a percepção da gravidade do problema. Isso ocorre porque a pessoa passa a acreditar que precisa da substância para conseguir conversar ou frequentar determinados ambientes. Nesse contexto, o acompanhamento psicológico e psiquiátrico pode avaliar tanto os sintomas da ansiedade quanto possíveis problemas relacionados ao consumo de álcool.

Tratamento da fobia social envolve psicoterapia e exposição gradual

A fobia social tem tratamento, e uma das principais abordagens utilizadas é a terapia cognitivo-comportamental (TCC). O método ajuda o paciente a identificar pensamentos negativos automáticos, questionar interpretações distorcidas e desenvolver estratégias para enfrentar situações que provocam ansiedade.

Gabriel Mendes explica que o processo permite modificar expectativas relacionadas ao julgamento de outras pessoas. “Por exemplo, uma pessoa pode acreditar que se gaguejar durante uma apresentação, todos vão considerá-la incompetente. Na terapia, ela aprende a examinar essa previsão, considerar outras interpretações e desenvolver respostas mais funcionais diante da ansiedade.”

Outra estratégia utilizada no tratamento do transtorno de ansiedade social é a exposição gradual às situações temidas. Primeiro, o paciente pode enfrentar interações que provocam menor desconforto. Depois, conforme desenvolve recursos para lidar com a ansiedade, passa a trabalhar situações mais difíceis. Entretanto, esse processo precisa ser planejado e acompanhado por um profissional, respeitando o ritmo individual e evitando exposições abruptas que possam intensificar o sofrimento.

Medicamentos podem ajudar a controlar a ansiedade social

Em alguns casos, o tratamento também envolve acompanhamento psiquiátrico e uso de medicamentos, principalmente quando os sintomas são intensos ou comprometem significativamente a qualidade de vida. Entre as opções estão determinados antidepressivos utilizados para reduzir manifestações persistentes de ansiedade. Porém, a escolha depende do histórico clínico, da intensidade do quadro e da avaliação dos possíveis efeitos adversos.

Gabriel Mendes ressalta que o tratamento precisa considerar as necessidades de cada paciente. Já Lacerda Cavalcante aponta que o acompanhamento psiquiátrico pode contribuir para melhorar as condições necessárias ao trabalho terapêutico. Assim, psicoterapia e medicamentos podem ser utilizados em conjunto, quando houver indicação profissional. O uso de remédios, entretanto, não deve começar ou terminar sem orientação médica.

Quando procurar ajuda para a fobia social?

A busca por ajuda psicológica não precisa acontecer somente quando a pessoa chega ao isolamento completo. Cancelamentos frequentes, sofrimento antecipado, perda de oportunidades e dificuldade para realizar tarefas cotidianas já podem justificar uma avaliação.

Segundo Gabriel Mendes, o tratamento deve começar antes que o medo comprometa diferentes áreas da vida. Lacerda Cavalcante também chama atenção para os sinais percebidos por familiares e amigos, que podem identificar mudanças comportamentais antes mesmo de quem enfrenta o transtorno.

“O momento de buscar ajuda é quando o medo passa a controlar as escolhas e dura meses, ou seja, causa um impacto real e generalizado na vida da pessoa, na verdade até um pouco antes disso, não precisa chegar ao ponto tão grave de ser tão generalizado.”

A recuperação não significa eliminar completamente a ansiedade, já que sentir nervosismo diante de situações desconhecidas faz parte das respostas humanas. O objetivo do tratamento da fobia social é permitir que a pessoa enfrente experiências importantes sem organizar toda a vida para evitar julgamentos. Por isso, a avaliação pode começar com um psicólogo e, conforme a necessidade, incluir acompanhamento psiquiátrico.


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Julia-Carmo
Autor: Júlia Carmo

Jornalista e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás (UFG), fascinada pelas narrativas do cinema, das séries, dos games e da literatura.

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