Condição mental impacta a vida de cerca de 8 milhões de brasileiros e pode ser controlada com tratamento adequado
O transtorno bipolar é uma das condições psiquiátricas mais incapacitantes do mundo. Segundo dados de 2019 da Organização Mundial da Saúde (OMS), a doença atinge cerca de 140 milhões de pessoas no planeta e está entre as principais causas de incapacidade global. No Brasil, estimativas apontam que cerca de 8 milhões de pessoas convivem com o transtorno.
O Dia Mundial do Transtorno Bipolar é celebrado em 30 de março — data que marca o aniversário do pintor holandês Vincent van Gogh, diagnosticado postumamente por especialistas como provável portador da condição. A efeméride busca ampliar a conscientização sobre a doença, combater o estigma e reforçar a importância da informação e do diagnóstico correto, segundo destaca o Ministério da Saúde.
Especialistas alertam que reconhecer os sinais iniciais é essencial para evitar agravamentos, reduzir o risco de complicações graves — incluindo o suicídio — e garantir um tratamento eficaz.
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O transtorno bipolar é uma condição psiquiátrica crônica que alterna episódios de depressão e de mania (ou hipomania), intercalados por períodos de estabilidade do humor. De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), referência usada por psiquiatras no mundo todo, a condição é dividida em três subtipos principais:
Durante a fase depressiva, os sintomas incluem tristeza persistente, desânimo, alterações no sono, perda de interesse em atividades cotidianas e, muitas vezes, perda de apetite e sensação constante de cansaço. Já na fase maníaca, o comportamento muda de forma significativa.
“Na fase depressiva, a pessoa pode apresentar tristeza profunda, desânimo, alterações no sono e perda de interesse por atividades. Já na fase maníaca, há aumento de energia, euforia, impulsividade, redução da necessidade de sono e, em alguns casos, comportamentos de risco”, explica o psiquiatra Mateus Nóbrega, do Instituto Maria Modesto.
Essas mudanças não são pontuais nem leves. Elas costumam ser intensas e duradouras, afetando diretamente a vida pessoal, social e profissional da pessoa.
Oscilações emocionais fazem parte da vida cotidiana, mas no transtorno bipolar elas assumem outra dimensão. A intensidade e a duração dos episódios são os principais fatores que diferenciam a condição de variações comuns de humor.
“Não se trata apenas de ‘dias bons ou ruins’. Os episódios podem durar dias ou semanas e interferem no trabalho, nas relações sociais e na rotina, sendo muitas vezes desproporcionais aos acontecimentos do dia a dia”, afirma Nóbrega.
Segundo o critério do DSM-5, um episódio maníaco precisa durar, no mínimo, quatro dias consecutivos (ou menos, se exigir internação), com humor anormalmente elevado, expansivo ou irritável na maior parte do dia. Já o episódio depressivo maior costuma ter duração média de cerca de duas semanas, com tristeza intensa, perda de prazer e de apetite, além de insônia ou sono excessivo.
Essa característica torna o diagnóstico mais desafiador, já que muitos pacientes demoram a procurar ajuda ou interpretam os sintomas como algo passageiro — especialmente nos episódios de hipomania, que podem ser confundidos com disposição ou bom humor.
O transtorno bipolar costuma se manifestar entre o fim da adolescência e o início da vida adulta: o diagnóstico é feito, na maioria das vezes, entre os 15 e os 25 anos, embora possa surgir em outras fases da vida.
A condição está associada a riscos importantes quando não tratada adequadamente:
O diagnóstico do transtorno bipolar é clínico e depende de uma avaliação detalhada feita por um médico, preferencialmente um psiquiatra. Não há exames laboratoriais ou de imagem específicos capazes de identificar a doença; exames podem, no entanto, ser solicitados para descartar outras condições médicas ou efeitos de substâncias que mimetizem os sintomas.
A análise considera o histórico do paciente, os sintomas relatados, o curso da doença ao longo do tempo e, quando possível, informações de familiares ou pessoas próximas — já que, durante episódios de mania ou hipomania, o próprio paciente pode não reconhecer que algo está fora do comum. Psicólogos também participam do acompanhamento, mas a definição do diagnóstico e a prescrição de medicamentos são atribuições médicas.
Médicos alertam ainda para os riscos da autodiagnose feita a partir de pesquisas informais na internet, o que pode gerar ansiedade excessiva e atrasar a busca por avaliação profissional adequada.
Esse processo de diagnóstico pode levar tempo, especialmente quando os episódios não são claramente identificados no início ou quando o transtorno é confundido com depressão unipolar — um erro comum, já que muitos pacientes bipolares procuram ajuda justamente durante episódios depressivos, sem relatar os períodos de euforia.
Embora não tenha cura, o transtorno bipolar pode ser controlado com tratamento adequado. O uso de estabilizadores de humor — como lítio e alguns anticonvulsivantes — é a base terapêutica, podendo ser combinado com antipsicóticos atípicos e psicoterapia.
“Com o tratamento adequado, é possível controlar os sintomas e proporcionar qualidade de vida ao paciente. A adesão ao tratamento e o acompanhamento contínuo são fundamentais para evitar recaídas”, reforça Mateus Nóbrega.
No Sistema Único de Saúde (SUS), o tratamento do transtorno bipolar segue o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT), que prevê a dispensação de medicamentos como quetiapina, olanzapina, risperidona, clozapina e lamotrigina pela rede pública.
Além da medicação, mudanças no estilo de vida — como manter rotina regular de sono, praticar atividade física, adotar alimentação equilibrada e evitar álcool e outras drogas — são recomendadas como parte do cuidado integral. O acompanhamento regular com profissionais de saúde mental é decisivo para ajustar o tratamento ao longo do tempo e identificar precocemente sinais de recaída.
Quem identifica em si ou em pessoas próximas sinais compatíveis com o transtorno bipolar deve procurar avaliação com psiquiatra ou, como porta de entrada, uma Unidade Básica de Saúde ou Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) do SUS. Informações adicionais sobre a condição podem ser consultadas na Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).
Em caso de ideação suicida ou crise emocional aguda, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, disponível 24 horas por dia, além de atendimento por chat e e-mail pelo site cvv.org.br.
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Jornalista especialista em Cultura, Arte e Entretenimento. Com ampla experiência em assessoria de imprensa para eventos, também compôs redações de vários veículos de comunicação. Já atuou como agente de viagens e agora se aventura no cinema como roteirista de animação. Editora e administradora do portal Gazeta Culturismo
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