Um homem blindado, um deserto sem fim e a única coisa da qual não se pode fugir: Si-mesmo
Paris, Texas (1984), dirigido por Wim Wenders, é um daqueles filmes atemporais — e que parecem ressoar quanto mais o tempo passa, envelhecendo como vinho. O filme carrega a marca de Wenders: personagens com uma profundidade quase literária, em um mundo sensível e muito vivo, lotado de alma.
A obra acompanha Travis Henderson (Harry Dean Stanton), um homem encontrado à deriva nos desertos do Texas, após desaparecer, sem explicação, por quatro anos. Em uma loja de conveniência, Travis desmaia e é socorrido por um médico, que percebe a situação delicada, vasculha sua roupa e decide ligar para um número encontrado em sua carteira — o de seu irmão, Walt Henderson (Dean Stockwell).
Uma característica muito bem usada no filme é a apresentação gradual da personalidade e da história dos personagens. Travis, por exemplo, já apresenta desde cedo traços de que está blindado emocionalmente, dando a entender que algum evento sério o levou àquela situação. Quando Walt vai buscá-lo no deserto, o personagem continua calado ao ser questionado sobre o que aconteceu.
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A construção dos personagens é muito sensível, e nos leva, à primeira instância, a nos apaixonar e empatizar com as questões deles. O papel de vítima de Travis é questionado minuciosamente pela primeira vez quando Hunter (Hunter Carson), seu filho, é apresentado ao espectador, enquanto estava sob a tutela de Walt e Anne (Aurore Clément), sua esposa. Há um não dito no lar da casa, que aos poucos é levado à consciência.
Conforme Travis tenta se reconciliar com Hunter, o personagem começa a relembrar Jane (Nastassja Kinski), sua ex-esposa e mãe de Hunter, e seu papel é completamente desconstruído, até os momentos finais, em um diálogo entre os dois. Travis, na verdade, é um personagem blindado emocionalmente, muito influenciado por uma noção de masculinidade que não permite espaço para a vulnerabilidade e conexões genuínas.
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Travis, ao final do filme, é lido como um personagem covarde, que foge de suas responsabilidades, tem medo de conexões e até mesmo de encarar-se. Suas escolhas têm consequências na vida de todos ao seu redor.
Seu filho é distanciado da família de Walt, e Jane perdeu uma perspectiva de futuro ao sofrer com o relacionamento tóxico. Essas, e outras consequências presentes no subtexto do filme, têm relação direta com uma característica de Travis: a incapacidade de lidar com suas emoções.
Travis funciona como uma representação do ideal de homem norte-americano, muito presente nos filmes de velho-oeste, de onde Wenders tomou inspirações. Entretanto, esse arquétipo é insustentável na prática, uma vez que a vida humana é frágil e lotada de tempestades e dicotomias.
Esse paralelo entre a necessidade moderna de adaptação a um novo modo de ser e a antiga ideia de como ele devia ser é representado pela viagem de Travis, do deserto “não-civilizado” à cidade.
A viagem, além de representar essa dicotomia, também representa o mundo interno de Travis, que está tão sobrecarregado de traumas não elaborados que acaba colocando o personagem em uma espécie de labirinto, em uma neurose, dando “mil voltas” em círculo, sem ao menos ter um destino em mente.
O mundo interno é projetado no exterior. Essa confusão sentida por Travis é reflexo de uma sociedade com ideais ultrapassados, mas que, caracteristicamente de tempos modernos, ainda não passou por um “rito de passagem”, tornando a falta de sentido, literal ou simbólica, uma marca na alma do protagonista.
Ao se reencontrar com Jane, Travis percebe que, mesmo sem notar, o tempo passou. Hunter está crescendo e, apesar das dores, o mundo não para. A falta de vulnerabilidade e a insistência em fugir da única coisa inalienável — o Si-mesmo — fazem com que o personagem se depare com as consequências da falta de abertura para a conexão, que distanciou as pessoas próximas, e relembre o quanto o momento é efêmero.
“Mas é interno o maior labirinto Cê tá ligado bem, amigo De volta ao motivo Não De volta ao motivo do motivo Mil voltas no mundo Em buscas e buscas Depois mais mil voltas em círculo Um circo num cerco de insanidade A fim de recuperar o que cê já tinha no início”
— Don L, em Aquela Fé
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Gabriel Dias é estudante de Jornalismo na UFG, repórter, gamer e apreciador da sétima arte. Além de ser jornalista, ama profundamente estudar filosofia; afinal, sempre foi extremamente curioso com o mundo à sua volta. Por fim, pensa que a beleza da existência está na simplicidade e nas conexões que nos fazem humanos. Contatos: [email protected] / @gabrieldiasjornal.
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