Levantamento aponta avanço do cigarro eletrônico entre jovens e especialistas alertam para riscos da nicotina e das lesões pulmonares
A proporção de adultos fumantes nas capitais brasileiras passou de 9,3% em 2023 para 11,6% em 2024, um crescimento de 25% em apenas um ano, de acordo com o Vigitel 2024, levantamento do Ministério da Saúde. O avanço do tabagismo ocorre em um cenário de preocupação crescente com o uso do cigarro eletrônico (vape), principalmente entre adolescentes e jovens, grupo em que os dispositivos eletrônicos vêm ampliando sua presença, segundo diferentes estudos e levantamentos nacionais.
Embora pesquisas indiquem redução do consumo do cigarro convencional entre adolescentes nos últimos anos, profissionais da saúde alertam que o vape tem atraído pessoas que nunca fumaram, favorecendo o início da dependência de nicotina. A comercialização, a importação e a propaganda desses dispositivos continuam proibidas no Brasil por determinação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
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Para o pneumologista Evandro Alencar Scussiatto, cooperado da Unimed Goiânia, o crescimento do uso do cigarro eletrônico entre pessoas sem histórico de tabagismo representa uma mudança importante no perfil dos dependentes de nicotina.
“O cigarro eletrônico atrai não fumantes com a falsa sensação de segurança. A nicotina nos vapes é tão ou mais viciante que no cigarro convencional, além de conter metais pesados e solventes. Os aerossóis contêm formaldeído, acroleína, diacetil e partículas ultrafinas que alcançam os alvéolos. Não existe tempo seguro de exposição.”
Em abril de 2024, a Diretoria Colegiada da Anvisa decidiu manter a proibição da fabricação, importação, comercialização, distribuição, armazenamento, transporte e propaganda dos dispositivos eletrônicos para fumar após concluir a Análise de Impacto Regulatório.
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Uma pesquisa realizada pelo Instituto do Coração (InCor), em parceria com a Vigilância Sanitária do Estado de São Paulo e o Laboratório de Toxicologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), avaliou mais de 400 usuários de cigarros eletrônicos em bares, shows e eventos no estado de São Paulo.
O estudo identificou que usuários com consumo intenso apresentaram concentrações de nicotina de até 4.530 ng/ml, enquanto fumantes de aproximadamente 20 cigarros por dia registraram média de 400 ng/ml. Em alguns casos, os níveis encontrados foram até seis vezes superiores aos observados entre fumantes de cigarros convencionais.
Os pesquisadores também verificaram diferenças importantes na frequência de uso. Enquanto um fumante tradicional costuma dar cerca de 200 tragadas por dia, usuários intensivos de vape podem chegar a 1.500 tragadas diárias.
Outro dado chamou a atenção dos pesquisadores: 54% dos participantes disseram não saber se os produtos continham nicotina. Entre aqueles que afirmaram utilizar dispositivos sem essa substância, análises laboratoriais detectaram nicotina em 55% das amostras.
De acordo com Evandro Scussiatto, os efeitos do vape podem surgir rapidamente, sem exigir anos de exposição, como tradicionalmente ocorre com o cigarro convencional.
“Já foram documentados casos de insuficiência respiratória aguda, EVALI, lesão pulmonar associada ao cigarro eletrônico, e bronquiolite obliterante após três meses de uso diário. O uso por curto período já eleva frequência cardíaca, provoca inflamação sistêmica e disfunção endotelial.”
A EVALI é uma lesão pulmonar associada ao uso de cigarros eletrônicos descrita inicialmente pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC). Entre os principais sintomas estão falta de ar, tosse, dor no peito, febre e insuficiência respiratória, podendo exigir internação em casos graves.
Abandonar o tabagismo sem acompanhamento profissional continua sendo um desafio para grande parte dos fumantes. Segundo o pneumologista, apenas 3% a 5% conseguem parar de fumar de forma duradoura sem tratamento.
Quando o tratamento combina medicamentos e acompanhamento especializado, a taxa de sucesso pode ultrapassar 70%.
“O tratamento existe e tem resultado comprovado. Os sinais de que a pessoa precisa de ajuda especializada incluem fumar mais de dez cigarros por dia, tentativas anteriores sem resultado, necessidade de fumar nos primeiros trinta minutos após acordar e sintomas como ansiedade e insônia ao tentar parar”, orienta Scussiatto.
No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece tratamento gratuito para cessação do tabagismo em diversas unidades de saúde, com acompanhamento multiprofissional e medicamentos indicados conforme avaliação clínica.
O Reino Unido aprovou em 2026 o Tobacco and Vapes Act, legislação que cria uma geração livre do tabaco ao impedir, de forma progressiva, a venda de produtos de tabaco para pessoas nascidas a partir de 1º de janeiro de 2009. As medidas começam a ser implementadas a partir de 2027 e também incluem restrições para reduzir a atratividade dos cigarros eletrônicos entre crianças e adolescentes, como limitações de sabores e de publicidade.
A Nova Zelândia foi o primeiro país a aprovar uma proposta semelhante, em 2022. No entanto, a legislação foi posteriormente revogada pelo governo antes de sua implementação completa, o que fez o país abandonar a estratégia da chamada “geração livre de tabaco”. os desafios impostos pelos cigarros eletrônicos em diversos países.
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