“Se não fosse a política pública, Goiás estaria em estágio ainda muito anterior”, diz cineasta goiano

Criador da CRASH avalia que o estado já demonstrou capacidade para produzir animação, terror, fantasia e ficção científica, mas ainda enfrenta concentração de mercado, dificuldade de financiamento e desafios na distribuição

Cinema independente em Goiás

O cinema independente em Goiás já reúne realizadores, produtoras, animações premiadas e experiências no cinema de gênero, mas ainda enfrenta dificuldades para transformar essa produção em uma atividade contínua. Na avaliação do cineasta e produtor cultural Márcio Júnior, o talento local deixou de ser a principal questão. Hoje, o desafio envolve financiamento, circulação das obras e políticas capazes de garantir que filmes produzidos no estado também cheguem às telas e ao público.

Criador da CRASH – Mostra Internacional de Cinema Fantástico e sócio-fundador da MMarte Produções, Márcio acompanha há décadas a produção alternativa no estado. Em entrevista à Gazeta, ele analisa o futuro do audiovisual goiano, a concentração das oportunidades no eixo Rio-São Paulo, as mudanças provocadas pelas novas tecnologias e o crescimento do terror, da fantasia e da ficção científica. Para o realizador, porém, a expansão desse mercado depende de uma estrutura que permita aos projetos sair da etapa de produção e alcançar espaços de exibição.

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Cinema independente em Goiás resiste mesmo quando falta estrutura

Cinema independente em Goiás

Márcio mantém uma visão otimista sobre a capacidade de sobrevivência da produção independente. Para ele, a própria característica desse tipo de cinema impede que dificuldades econômicas ou mudanças políticas eliminem completamente a criação audiovisual.

“Eu sempre olho com bons olhos o futuro do cinema independente, da produção alternativa aqui do estado de Goiás e do Brasil, porque, na verdade, por ser independente, ela não vai se curvar nunca, ela não vai se render nunca, e ela é impossível de ser extinta”, afirma Márcio Júnior.

Esse otimismo, no entanto, não significa que o realizador considere suficiente produzir filmes apenas pela mobilização dos próprios artistas. Quando o poder público mantém mecanismos de incentivo, segundo ele, o setor consegue ampliar equipes, desenvolver linguagem e transformar a produção cultural em atividade econômica.

“Eu sempre vejo um futuro que, aconteça o que acontecer, ele vai criar condições de existir”, considera. “O que a gente espera é um outro panorama onde o Estado seja um agenciador disso, porque isso só promove riqueza, tanto do ponto de vista simbólico quanto do ponto de vista econômico”, acrescenta.

Nesse modelo, o financiamento também interfere na representação regional. Quanto mais produções conseguem sair do papel, maior a possibilidade de atores, técnicos, roteiristas, músicos, animadores e outros profissionais goianos trabalharem em obras que mostrem personagens e realidades do próprio estado.

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Política pública define quanto dessa produção consegue avançar

A participação do Estado ocupa boa parte da avaliação de Márcio. O cineasta lembra que mudanças na política cultural já provocaram rupturas profundas no audiovisual brasileiro. Em 1990, durante o governo Fernando Collor, o governo federal extinguiu a Embrafilme e outras estruturas ligadas à cultura, período que marcou uma retração na produção e no financiamento do cinema nacional.

“A questão toda está nesse espectro da política pública, a política pública que é capaz de transformar isso”, argumenta Márcio. Para ele, decisões tomadas em Brasília, nos estados e nos municípios conseguem acelerar ou interromper cadeias que dependem de financiamento continuado para manter equipes e projetos em atividade.

Ao mesmo tempo, o cenário do cinema independente em Goiás de 2026 reúne novos mecanismos em Goiás. Em 8 de outubro, o Governo de Goiás abriu dois editais dos Arranjos Regionais do Fundo Setorial do Audiovisual, com R$ 30 milhões. Desse total, R$ 29 milhões atendem longas-metragens e obras seriadas para televisão e streaming, enquanto R$ 1 milhão financia a comercialização de longas independentes em salas de cinema. Os editais preveem a seleção de 22 projetos.

Já a Política Nacional Aldir Blanc abriu neste ano outro edital estadual específico para audiovisual, com R$ 1,5 milhão destinado ao desenvolvimento de roteiros e à realização de curtas-metragens, inclusive primeiras obras. Portanto, existem recursos em circulação atualmente, embora o debate levantado por Márcio esteja ligado à continuidade dessas políticas e à capacidade de construir uma cadeia permanente.

Márcio rejeita ideia de que cinema brasileiro perde espaço por falta de qualidade

Outro ponto contestado pelo produtor é a associação entre presença comercial e qualidade artística. Para ele, o espaço reduzido destinado ao audiovisual brasileiro não pode ser explicado simplesmente pela avaliação de que produções estrangeiras apresentam qualidade superior.

“Se engana muito quem acha que essa questão do mercado é uma questão que tem a ver com a qualidade, porque tem essa coisa dessa síndrome de vira-lata de brasileiro”, critica Márcio.

O cineasta relaciona o problema do cinema independente em Goiás, também à capacidade de distribuição e à concorrência com grandes estruturas internacionais. Nesse cenário, produzir um filme representa apenas uma etapa. Depois, a obra precisa encontrar salas, canais, plataformas, festivais e mecanismos de divulgação capazes de aproximá-la do público.

“O Brasil já ganhou o Oscar, ganhou tudo quanto é prêmio no mundo, nossos filmes estão em pé de igualdade do planeta inteiro, então o que a gente precisa é de política que assegure a nossa presença nas telas, a nossa produção e a chegada dessa produção ao público”, defende.

A legislação brasileira mantém instrumentos voltados a essa presença. Em 2024, por exemplo, a Lei nº 14.815 prorrogou até 2038 dispositivos relacionados às obrigações de conteúdo brasileiro na televisão por assinatura e manteve outras políticas de exibição previstas na legislação audiovisual.

Celular facilitou filmagens, mas também mudou a forma de assistir

Enquanto o financiamento continua como um desafio estrutural, a tecnologia reduziu parte das barreiras técnicas. Décadas atrás, realizar uma produção cinematográfica exigia película, revelação e equipamentos de custo elevado. Hoje, câmeras digitais e até celulares permitem gravar imagens com qualidade suficiente para diferentes tipos de projeto.

Márcio vê essa transformação do cinema independente em Goiás, como uma abertura para novos realizadores. Porém, o mesmo ambiente tecnológico que facilita a produção também alterou o comportamento do público. Redes sociais, plataformas e telas menores disputam constantemente a atenção e influenciam ritmo, duração e montagem dos conteúdos.

“Antigamente para você produzir audiovisual era película, de cinema, isso era caríssimo, e hoje o cara com, por exemplo, um celular de boa qualidade, ele consegue produzir um material tecnicamente eficiente”, explica.

Por outro lado, Márcio questiona uma possível adaptação excessiva da linguagem cinematográfica a esse consumo acelerado. Para ele, o desafio está em utilizar as novas ferramentas sem reduzir a experiência artística a conteúdos construídos apenas para disputar segundos de atenção.

“Eu acho que cabe a gente tentar explorar essas possibilidades sem reduzir a qualidade do que está sendo proposto, nós não podemos, digamos assim, regredir a linguagem do audiovisual”, avalia. “A gente precisa continuar instigando esse ambiente, tem que continuar sendo um ambiente rico de reflexão estética, filosófica, teórica, de pensamento”, completa.

Terror e fantasia podem discutir problemas reais

Cinema independente em Goiás

Essa busca por uma linguagem menos previsível no cinema independente em Goiás, aparece também na defesa do cinema fantástico. Márcio trabalha há anos com terror, ficção científica, suspense, fantasia e animação, gêneros que ocupam a programação da CRASH e parte das produções desenvolvidas pela MMarte.

Para ele, monstros, futuros distópicos e situações sobrenaturais ganham força quando funcionam como ferramentas para discutir temas reconhecíveis fora da tela. Assim, o fantástico não precisa abandonar a realidade. Pelo contrário, pode transformá-la em símbolos e alegorias.

“O cinema fantástico que nos interessa é esse que dialoga e que problematiza as questões que são reais na sociedade”, define Márcio.

O produtor cita a tradição do gênero para sustentar essa leitura. Filmes de horror e ficção científica historicamente recorrem a criaturas, ameaças e mundos imaginários para tratar de medo, autoritarismo, desigualdade, violência, tecnologia ou conflitos sociais. Por isso, Márcio considera limitado pensar o terror apenas como uma sequência de sustos destinada ao entretenimento.

“O grande cinema fantástico, aquele que tem qualidades artísticas capazes de impactar realmente a sociedade, é aquele que não está preocupado apenas em atender uma demanda de público, mas que está preocupado em última instância em discutir questões que são fundamentais na sociedade através de um viés metafórico, alegórico”, analisa.

Concentração no Sudeste ainda afeta o cinema independente em Goiás

A localização também interfere na capacidade de manter uma carreira. Márcio aponta que Rio de Janeiro e São Paulo concentram empresas, canais, produtoras, investidores e outras estruturas ligadas ao audiovisual. Enquanto isso, realizadores de estados fora desse eixo precisam construir redes menores ou depender de políticas que distribuam recursos pelo território nacional.

Para o cineasta, mecanismos federais de descentralização ajudaram Goiás a avançar. Entre eles estão recursos administrados pela Ancine e políticas que reservam espaço para conteúdo brasileiro e independente em diferentes janelas.

“Se não fosse esse tipo de política pública, Goiás estaria em um estágio ainda muito anterior”, avalia Márcio.

Essa descentralização contribuiu, segundo ele, para o surgimento de produções que anteriormente encontrariam ainda mais obstáculos. Hoje, o estado possui séries de animação, longas animados, curtas, documentários e obras que transitam pelo terror e pela fantasia.

“A política pública é a saída para a produção cultural, e isso não é só no Brasil, é no mundo inteiro”, defende. “Os cinemas mais pujantes do mundo têm um grande amparo estatal para a produção da cultura, porque enxergam isso como uma posição estratégica de mercado”, acrescenta.

Cinema independente em Goiás já circula fora do estado

Apesar das dificuldades apontadas, Márcio recorre à própria produção goiana para contestar a ideia de falta de capacidade técnica ou artística. A MMarte mantém uma filmografia que inclui animações como “O Ogro”, “A Noiva do Coelhinho”, “O Evangelho Segundo Tauba e Primal” e “O Retrato do Mal”. A produtora também trabalha com cinema, quadrinhos e formação por meio da Escola Goiana de Desenho Animado.

“O Ogro”, lançado em 2011, adaptou uma história em quadrinhos de Antônio Rodrigues e Julio Shimamoto. Depois, “A Noiva do Coelhinho”, dirigida por Rafael Franco, aproximou animação e temas como violência doméstica e abuso infantil. Já “O Retrato do Mal”, dirigido por Márcio Júnior e Márcia Deretti, partiu de uma obra de Jayme Cortez.

Outro exemplo citado pelo realizador é “Terra e Luz”, longa de Renné França. O filme circulou por mostras brasileiras e recebeu o prêmio do júri popular no Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental, o Fica, em 2017. A obra também chegou a sessões comerciais em Goiânia depois de passar pela Mostra de Cinema de Tiradentes.

Para Márcio, trajetórias desse tipo mostram que o obstáculo não começa necessariamente dentro do set. “O talento para produzir a gente tem e o que nós precisamos em última instância para que isso vá mais adiante é a questão da política pública”, sustenta.

Cinema de gênero cresce à medida que mercado ganha diversidade

Terror, fantasia e ficção científica ainda representam uma parte menor da produção brasileira quando comparados a outros gêneros, mas Márcio percebe um movimento de expansão. Nesse processo, ele enxerga a especialização como sinal de que o audiovisual passa a comportar públicos e criadores com interesses mais específicos.

“O cinema de gênero sempre teve seguidores fiéis”, observa o produtor. Depois, ele relaciona o aumento dessas produções a um processo de amadurecimento. “Quando a gente chega nesse estágio de produção, onde a gente está tendo gênero, isso é sinal de uma indústria que está amadurecida ou se amadurecendo”, considera.

A CRASH acompanha esse movimento desde 1999, quando Márcio criou a mostra em Goiânia. O festival se dedica justamente ao cinema fantástico e reúne terror, ficção científica, fantasia e outras vertentes. Ao longo das edições, a programação também incorporou debates, livros, homenagens e competições de curtas e longas.

Nesse sentido, festivais especializados cumprem duas funções. Enquanto aproximam obras de espectadores que já acompanham determinado gênero, também ajudam filmes independentes a encontrar circuitos de exibição fora das grandes redes comerciais.

Produção independente conecta cinema, quadrinhos, música e artes visuais

Cinema independente em Goiás

A relação de Márcio com o audiovisual faz parte de uma atuação que atravessa diferentes linguagens. Além da CRASH e da MMarte, ele trabalha com quadrinhos, música, artes visuais e produção cultural. Também criou projetos ligados à animação e participou de iniciativas que conectam essas áreas.

Essa circulação ajuda a explicar a maneira como ele pensa o cinema independente em Goiás. Em vez de enxergar cada linguagem de forma isolada, o produtor se interessa por circuitos alternativos nos quais artistas conseguem experimentar formatos que nem sempre encontram espaço no mercado de maior escala.

“Existe de fato uma característica que conecta todas essas linguagens e todos esses trabalhos”, afirma Márcio. “Eu acho que essa característica é uma espécie de gosto por aquilo que é independente, alternativo, que carrega uma dose de, digamos assim, ousadia e transgressão”, detalha.

Já a distância do chamado mainstream aparece como uma escolha artística, e não apenas como consequência da falta de recursos. “Me interessa principalmente esses circuitos mais marginais pelos quais as linguagens artísticas percorrem”, conclui o cineasta.


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Julia-Carmo
Autor: Júlia Carmo

Jornalista e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás (UFG), fascinada pelas narrativas do cinema, das séries, dos games e da literatura.

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