Entrou em um cômodo e esqueceu o que ia fazer? Neurologista explica

O chamado "efeito da porta" ajuda a explicar por que muitas pessoas esquecem o que iam fazer ao entrar em outro ambiente

Por que esquecemos o motivo de entrar em um cômodo Neurologista explica

Quem nunca entrou em um cômodo da casa e, de repente, esqueceu o que ia fazer ou o motivo de estar ali? Embora a situação pareça apenas uma distração do dia a dia, a ciência já identificou uma explicação para esse comportamento. Conhecido como efeito da porta, o fenômeno acontece porque o cérebro reorganiza as informações sempre que uma pessoa muda de ambiente.

Assim, ao atravessar uma porta, a pessoa interpreta que uma etapa foi concluída e outra começou. Nesse momento, informações que ainda estavam na memória de curto prazo podem perder prioridade por alguns segundos. No entanto, isso não significa que a lembrança desapareceu. Em muitos casos, basta retornar ao cômodo anterior para recuperar a informação que parecia ter sido esquecida.

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O que acontece no cérebro quando mudamos de ambiente?

Segundo a médica neurologista Dra. Roussiane Goioso, cooperada da Unimed Goiânia e pós-graduada em Psiquiatria, o chamado doorway effect, ou efeito da porta, representa um mecanismo natural de organização da memória.

“Esse é um fenômeno muito comum e, na maioria das vezes, completamente normal. Nosso cérebro organiza as informações em episódios ou contextos. Quando atravessamos uma porta, ocorre uma atualização desse contexto mental, como se um capítulo fosse encerrado e outro tivesse início”, explica.

A especialista afirma que essa mudança de contexto pode fazer a intenção inicial perder espaço para novos estímulos. Se o objetivo ainda não estava suficientemente consolidado na memória de trabalho, ele pode perder prioridade diante das informações do novo ambiente. O cérebro passa a direcionar a atenção para o que está acontecendo naquele espaço, e o objetivo anterior pode ficar temporariamente inacessível.

“A informação continua armazenada. O que acontece é uma dificuldade momentânea para acessá-la. Por isso, muitas pessoas lembram do que iam fazer quando voltam ao cômodo anterior, já que reencontram o contexto que servia como pista para aquela lembrança”, destaca.

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Excesso de informações aumentam os esquecimentos

Embora o efeito da porta seja considerado normal, alguns hábitos podem tornar esses episódios mais frequentes. Segundo a neurologista, o principal problema costuma estar relacionado à atenção, e não à memória.

“Na prática clínica, observamos que a maioria desses episódios está mais relacionada à falha de atenção do que propriamente a um problema de memória. Para memorizar uma informação, primeiro é necessário prestar atenção a ela”, afirma.

Além disso, a especialista explica que fatores comuns da rotina prejudicam o funcionamento do cérebro. O estresse crônico, a ansiedade, a privação de sono, o excesso de informações e a multitarefa reduzem a capacidade de concentração.

Ela acrescenta que o uso intenso de telas também interfere nesse processo. As notificações constantes fragmentam a atenção. Como consequência, fica mais difícil manter o foco em uma tarefa até a sua conclusão.

Hábitos simples ajudam a preservar a atenção

De acordo com a Dra. Roussiane Goioso, pequenas mudanças na rotina podem reduzir os chamados “brancos” do dia a dia. Fazer uma tarefa de cada vez continua sendo uma das estratégias mais eficazes. Além disso, ela recomenda dormir entre sete e nove horas por noite, praticar atividade física regularmente e diminuir as interrupções durante atividades importantes.

“Repetir mentalmente o objetivo antes de sair de um ambiente funciona como uma pista cognitiva e ajuda o cérebro a manter aquela informação ativa”, afirma.

Segundo ela, organizar a rotina com listas e lembretes também pode ser útil. Não existem evidências robustas de que aplicativos de treinamento cerebral melhorem a memória de forma global. Os maiores benefícios vêm da combinação entre sono adequado, atividade física, estímulo intelectual, boa atenção e controle do estresse.

Quando o esquecimento deixa de ser normal?

Esquecer, ocasionalmente, o motivo de entrar em um cômodo não costuma indicar uma doença neurológica. No entanto, a especialista alerta que a frequência e o impacto desses episódios precisam ser observados.

“Repetir constantemente as mesmas perguntas, esquecer compromissos importantes, perder-se em trajetos conhecidos, apresentar dificuldade persistente para encontrar palavras ou administrar medicamentos e finanças são situações que merecem atenção”, afirma.

Ela acrescenta que familiares também costumam perceber mudanças antes do próprio paciente. Esquecer ocasionalmente faz parte da vida e, isoladamente, não significa demência. O que realmente merece atenção é quando os esquecimentos se tornam frequentes, progressivos e passam a comprometer a autonomia da pessoa. Nesses casos, a avaliação com um neurologista é fundamental para identificar a causa e iniciar o tratamento adequado, quando necessário.


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Julia-Carmo
Autor: Júlia Carmo

Jornalista e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás (UFG), fascinada pelas narrativas do cinema, das séries, dos games e da literatura.

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